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Há efeitos colaterais, em alguns processos, que são absolutamente surpreendentes. Alguns até levam a descobertas interessantes como a da penicilina. Mas, aqui, quero falar de um efeito colateral da melhoria das condições de vida no Nordeste brasileiro. Trata-se da situação dos jumentos… É isso mesmo… estranho, né?

Esse animal, domesticado há cerca de 5 mil anos, é originário do norte da África. Há muito é utilizado como animal de carga e de montaria. Sancho Pança, incansável companheiro de Dom Quixote, não foi o único a vagar pelo mundo montado num burrico… Até recentemente, esse animal foi fundamental para o exercício de várias tarefas no Nordeste brasileiro. Mas agora…

Dizem, e eu não sei se é verdade, que como a população do Nordeste passou a usar outros meios de transporte que não os famosos jegues, esses pobres animais ficam a vagar, desolados, pelas ruas das cidades do interior. Para resolver o problema, os governos estaduais estavam dispostos a exportar os jumentos. Chegou-se a noticiar, no ano passado, que o Rio Grande do Norte iria exportar 300 mil jegues por ano para a China. Esse país abate cerca de 1,5 milhão de burros anualmente para fins alimentares. Ou seja, os jumentos deixariam de ser meios de transporte e passariam a ser comida chinesa… Fico me perguntando se seria um grande avanço para eles… A verdade é que o negócio não se concretizou e os jumentos continuam circulando Nordeste afora…

Pesquisando um pouco sobre o uso dos jumentos mundo afora, descobri que em Israel, há um parque que usa esses animais como meio de transporte para seus visitantes, mas não apenas como burricos para montaria… trata-se de jegues high-tech! A cada jumento está acoplado um roteador wi-fi que permite que o visitante curta e compartilhe em tempo real suas experiências na Vila Yore, no Parque de Kfar Kedem, ao norte de Israel. O interessante é que a proposta do Parque é simular a vida na Terra Santa há 2 mil anos, dando ao visitante a oportunidade de ver e participar de várias atividades… mas tudo isso com possibilidades de postar tudo no facebook imediatamente…

Outra ideia interessante vem do próprio Nordeste: no Ceará, um apicultor, Manuel Juraci, leva seu jumento, com roupas de apicultor, todo dia ao seu apiário, onde o animal ajuda a coletar 9 litros de mel. Talvez esse apicultor pudesse fazer escola e outros jegues bem treinados pudessem servir de ajuda a outros apicultores…

Enfim, espero que, antes que virem comida chinesa, alguém pense num destino mais nobre para nossos pobres jumentos… ideias não hão de faltar… afinal, eles devem ter seu lugar nesse planetinha também… ou não?

 

Por Nurit Bensusan

Bióloga e engenheira florestal, pós-graduada em História e Filosofia da Ciência pela Universidade Hebraica de Jerusalém, mestre em Ecologia e doutora em Educação pela Universidade de Brasília (UnB). É autora do blog Nosso Planeta, do jornal O Globo ( http://oglobo.globo.com/blogs/nossoplaneta ), uma de suas plataformas de popularização da ciência, e criadora da Biolúdica ( http://www.bioludica.com.br/ ), oficina de jogos com temas biológicos voltada para crianças e adolescentes. Participa também do coletivo de ideias Biotrix ( www.biotrix.com.br ) e é autora de mais de 12 livros, entre eles Biodiversidade: é para comer, vestir ou passar no cabelo; Meio Ambiente: e eu com isso?; Quanto dura um rinoceronte?, Rio + 20, +21, +22, +23 e Labirintos – Parques Nacionais (editora Peirópolis). Foi responsável pela área de biodiversidade e coordenadora de políticas públicas do WWF Brasil, coordenadora de biodiversidade no Instituto Socioambiental e coordenadora do núcleo de gestão do conhecimento do Instituto Internacional de Educação do Brasil.

Assessoria de imprensa:
Clarice Gulyas (61) 8177 3832
claricegulyas@gmail.com

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