Por Nurit Bensusan / Globo Online
Bióloga, engenheira florestal, doutora em Educação, especialista em popularização da Ciência

Daniel Libeskind, um dos grandes arquitetos e pensadores da arquitetura hoje, diz que uma cidade pode se transformar a partir de um prédio… e certamente muitas das cidades, como Berlin, que receberam projetos desse arquiteto, mudaram. Talvez Nova York mude um pouco já que ele foi o ganhador da competição para a reconstrução do World Trade Center e há esperanças para São Paulo e Porto Alegre, onde prédios de Libeskind vão ser construídos.

Jorge Wagensberg, criador do CosmoCaixa, o museu de ciências de Barcelona, premiado, há alguns anos, como o melhor museu da Europa, diz algo semelhante: um museu transforma uma cidade, uma cidade sem museu de ciências é radicalmente diferente de uma cidade com museu de ciência. Os portalegrenses, mais uma vez, podem se pronunciar: será que a Porto Alegre de hoje é diferente da Porto Alegre antes do Museu de Ciência e Tecnologia da PUCRS? Eu acredito que sim…

E o que dizer, então, de um museu que é de ciência, mas sobre ele diz a mídia: “Pode ter ciência no nome, mas cada exposição da galeria mostra que é o local mais criativo, inovador e artístico de toda Irlanda”? Trata-se da Science Gallery, um museu de ciência, em Dublin, na Irlanda, que trabalha com os assuntos mais quentes da ciência e mais, tem a proposta de democratizar o debate sobre temas científicos e os processos de tomada de decisão sobre ciência e tecnologia. Aberta em 2008, a Science Gallery já recebeu mais de um milhão de visitantes.

A exposição do momento, na Science Gallery, é muito interessante. Chama-se “Grow your own…” (algo como faça crescer o seu próprio…) e é sobre biologia sintética. Com curadoria de cientistas, artistas e biohackers, a exposição se divide em três grandes blocos: vida, sociedade e máquinas. Em cada bloco, há ideias e projetos muito provocativos mostrando que o futuro da biologia sintética pode ser aquele que nós escolhermos, mas há, talvez, infinitas possibilidades.

Alguns exemplos de projetos expostos:

Selfmade:  um queijo individual, feito a partir dos microorganismos da pele de cada pessoa, aproveitando que muitas bactérias envolvidas na confecção dos queijos mais fedorentos são similares às encontradas na nossa pele…

I wanna deliver a dolphin: uma instalação com referência ao momento futuro onde poderemos ajudar outras espécies, dando a luz aos seus filhotes e eventualmente, também, à nossa comida.

New Mumbai: um filme sobre cogumelos que tomam conta das paredes de Dharavi, uma favela de Mumbai, e que depois de uma tentativa mal sucedida de usá-los como base para novas drogas, acabam servindo como material para vários usos como construção e aquecimento.

Designing for the sixth extinction: uma instalação sobre o potencial da biologia sintética na conservação da biodiversidade… e todas suas implicações…

Circumventive organs: instalação sobre a criação de órgãos “novos”, combinando partes humanas e de outros animais, para resolver problemas de saúde dos humanos.

Há muitos outros e vale a pena uma visita ao site da exposição, para quem não vai ter a chance de estar em Dublin até dia 19 de janeiro…

Agora, imagine uma exposição dessas, na cidade que você mora, de preferência dentro de um prédio do Daniel Libeskind… tem que ajudar a mudar alguma coisa, pelo menos suscitando o debate sobre o futuro que queremos…

Xylinum cones, outro dos projetos expostos. É uma linha de produção de objetos geométricos criados a partir de organismos vivos. Quem sabe com eles seja possível fazer crescer um prédio como os de Libeskind… Ou, talvez, devamos fazer crescer nossa própria mudança…

 

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