Por Nurit Bensusan / Globo Online
Bióloga, engenheira florestal, doutora em Educação, especialista em popularização da Ciência

Você já reparou que tem bares que “pegam” e viram moda, enquanto outros, apesar de serem simpáticos e terem tudo para dar certo, definham e fecham logo? Não sei dizer o que rege essa dinâmica… Tampouco sei porque certas questões polêmicas se tornam tão populares e polarizadas, enquanto outras, aparentemente tão importantes quanto, não conquistam corações e mentes… Mas sei que a questão das mudanças climáticas e do aquecimento global está entre as populares e polarizadas.

Um bom termômetro para isso foi a reação ao novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), lançado no final de setembro. Orelatório deixa claro, mais uma vez, que a situação é grave e que dados se acumulam mostrando que há influência humana sobre o aquecimento da atmosfera e dos oceanos, sobre o ciclo hídrico global, sobre a redução da neve e do gelo, sobre o aumento do nível do mar e sobre as mudanças em alguns eventos climáticos extremos. Ou seja, a responsabilidade sobre as mudanças climáticas é quase com toda certeza das atividades humanas. Cartas aos jornais e revistas, assim como comentários aos textos publicados na internet, mostram a polarização da discussão: há os que se desesperam com nossa inoperância diante de constatações tão sérias e os que se exasperam com tais constatações, insistindo que tudo isso ou é má-fé ou é má-ciência, isto é, se há aquecimento global, a responsabilidade não é da nossa espécie…

O tema desse post, porém – pasmem – não é a mudança do clima… ou melhor, não exatamente… Trata-se, na verdade, de algo que aconteceu por causa das reações às mudanças climáticas: o jornal “Los Angeles Times” resolveu deixar de publicar cartas dos que negam as mudanças climáticas. O argumento central do texto (que pode ser lido na íntegra, em inglês, aqui) do jornalista Paul Thornton, que explica as razões do jornal, é que sua função é manter a seção de cartas livre de erros factuais e para ele a afirmação de que “não há sinais de que os humanos estejam causando mudanças climáticas” não é uma opinião e sim uma incorreção.

Essa história conduz a diversas reflexões possíveis. Uma delas se refere diretamente ao “status” das informações geradas pelo IPCC que passam a ser consideradas, pelo menos pelo LA Times, fatos. Isso remete a diversas outras situações, como por exemplo as relativas à evolução biológica. Fiquei intrigada, será que o jornal publica cartas dos que negam a evolução? Será que é esse o papel de um jornal, estabelecer o que considera fato e recusar o resto? Talvez valha a pena refletir sobre um dos comentários postados em resposta ao texto. Ele diz que afora alguns assuntos como a Terra ser plana, astrologia e a presença de extra-terrestres visitando a Terra, os outros todos ainda estariam abertos para a discussão, inclusive – e principalmente – o das mudanças climáticas, uma vez que tem havido uma batalha ideológica por trás da geração, divulgação e interpretação dos dados.

Independente da minha posição em relação ao tema, confesso que fiquei incomodada com a atitude do jornal. As seções de cartas – e mais recentemente de comentários a textos postados na internet – tem sido espaço para o debate de ideias e muitas vezes servem para espelhar a opinião de uma comunidade sobre um determinado assunto. O cerceamento de posições, com exceção daquelas que incitam a violência ou desrespeitam a diversidade humana, pode ser temerário.

Se confiamos que as informações do IPCC são fatos, podemos nos alegrar com a decisão do LA Times, mas apenas num primeiro momento, pois se isso se tornar a regra, haverá certamente muitas de nossas opiniões que serão taxadas de incorreções e não encontrarão mais lugar para serem expressas… Ou será que o futuro da diversidade de opiniões está restrito às redes sociais?

A mídia já vem enfrentando críticas contínuas – e em geral pertinentes – sobre os conflitos de interesse não explicitados e a manipulação da informação a serviço do poder. Ao explicitar a recusa das cartas que negam as mudanças climáticas, será que o jornal ajuda a tornar a mídia mais transparente ou contribui para o estreitamento das possibilidades de lidar com a diversidade de opiniões?

Em tempo: para evitar mal entendidos, quero deixar claro que eu confio nas informações geradas pelo IPCC e acredito que as mudanças climáticas tem como causa maior as atividades humanas.    

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